Sempre escutamos que mitos são histórias inventadas
para explicar fenômenos que não entendemos. Existem milhares de fatos que foram
explicados por essas narrativas, mas peguemos o mais grandioso deles: a criação
do mundo.
Muito antes de dizerem que esse pequeno planeta
azul teria surgido de uma grande explosão chamada “Big Bang” (e que era pequeno
e azul), existiam outras formas de entender o seu surgimento de tudo. Por
exemplo, para os judeus (assim como para os cristãos) Deus criou o mundo em
seis dias e descansou no sétimo. No caso dos gregos antigos, a criação do mundo
vinha do deus primordial Caos, que deu origem a outros cinco deuses (Gaia,
Tártaro, Eros, Érebo e Nix ). Esses cinco deuses se incumbiram da tarefa de criar
tudo que existe.
Hoje, independente da religião que professemos,
muitos de nós não acreditam nessas histórias. A ciência deu luz a maioria de
nossas inquietações. Então por que dizermos que os super-heróis são mitos
modernos? O que eles tem a nos explicar?
Abaixo segue duas citações retiradas do livro “O
poder do mito” de Joseph Campbell:
“Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de
sentido, de significação, através dos tempos”.
“Contamos histórias para tentar entrar em acordo
com o mundo, para harmonizar nossas vidas com a realidade”.
Diante dessas afirmações, em um primeiro momento
podemos realmente dizer que os mitos são apenas uma forma de explicar o mundo
que nos rodeia, mas percebemos que o papel deles (como de qualquer história) é
muito maior: é tornar esse mundo parte de nós.
Os super-heróis nos tornam parte desse todo. Muito mais do que imaginamos…
Há pouco mais de um ano, os jornais noticiaram que uma mãe entrou numa espécie
de lagoa, sem saber nadar, para salvar o filho que estava se afogando. Se
esquecermos por um instante do fator biológico de preservação da espécie, essa
mulher ultrapassou seus limites para salvar um bem maior que a própria vida
dela. Ela foi ovacionada como uma heroína. Muitos foram os casos de pessoas que
extrapolaram seus limites objetivando o bem do outro, normalmente aos que fazem
isso denominamos heróis.
O que diferenciaria essa mulher do Superman? Claro, os super-poderes! Seria
muito mais fácil se ela tivesse a habilidade de voar do homem de aço. Ela
apenas voaria por cima do pequeno lago e resgataria a criança num ato quase
cinematográfico. Seria dramático, com certeza, mas ela continuaria sendo
considerada uma heroína, mesmo não tendo lá muito trabalho no resgate? Não
seria mais ou menos como puxar a mão do filho quando, ao atravessar a rua, ele
se adianta sem perceber um carro que está se aproximando?
Por conta desses questionamentos alguns consideram a expressão “super-herói” um
grande paradoxo. Ser “herói” e “super” ao mesmo tempo não teria nenhum nexo.
Uma saída é irmos para o contraponto pensando nos “super-vilões” que,
normalmente tem super-poderes e os utiliza para o que conceituamos chamar de
Mal. Então tanto os heróis quanto os super-heróis estão ligados pela sua essência,
que é fazer o bem.
Superman e o ser herói.
Superman foi o primeiro grande super-herói de
outros que tentaram imita-lo, com ou sem sucesso. Foi criado por dois
estudantes Jerry Siegel e Joe Shuster e sua primeira aparição foi em Junho de
1938 na revista Action Comics.
A origem clássica do Superman narra que para salvar
a vida de seu filho da destruição total do planeta Kripton, o cientista Jor-EL
lança-o dentro de uma pequena aeronave que cai na Terra, mais especificamente
em uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos chamada Smallville. A criança
é adotada por John e Marta Kent e recebe o nome de Clark Kent. Com o passar dos
anos, Clark descobre sua origem e percebe que é diferente dos outros habitantes
do nosso planeta.
Mais tarde vai trabalhar em Metrópolis, como o
jornalista no Planeta Diário. Lá conhece Lois Lane, Jimi Olsem e Perry Whait.
Por que ele faz o que ele faz?
Mark Waid, roterista de Kingdom Come (Reino do
Amanhã), é considerado o maior especialista em Superman da atualidade. Em um
texto feito para o livro Super-Heróis e a Filosofia conta que quando foi
convidado a escrever O Legado das Estrelas (nova história sobre a origem do
homem de aço) se deparou com a seguinte pergunta: “Por que ele faz o que ele
faz?” Imagine-se o ser mais poderoso de todo mundo sendo, praticamente,
invulnerável. Por que não se tornar literalmente o dono dele? A resposta dada
por Waid é bem exemplificada na história Para o homem que tem tudo criada por
Allan Moore – Kal-El precisa ser aceito, assim como todos nós.
Nessa história Moore mostra o dia do aniversário de
Kal. O que dar para um homem que pode ter qualquer coisa? Ao chegarem na
Fortaleza da Solidão para dar-lhe os parabéns, Mulher-Maravilha, Batman e Robin
descobrem Superman em um transe causado por uma espécie de planta alienígena,
presenteada por um de seus inimigos. O que mais nos perturba é a ilusão criada
pela planta-parasita: ela reproduz o maior desejo na mente daquele de quem se
apodera. Podemos pensar em sonhos de glória para o campeão de Metrópolis, mas
esse sonha com uma vida simples, em seu planeta natal, com mulher e filhos.
Como já disse, os super-heróis nos tornam parte do
mundo muito mais do que imaginamos. São nossas personificações melhoradas que
anseiam pelas mesmas coisas, seja entender que “grandes poderes trazem grandes
responsabilidades” como Peter Parker ou ser o homem mais poderoso do mundo e
apenas querer ser aceito. Clark Kent, diferente do que muitos pensam, é o
disfarce de Kal-El e não seu alterego. Como Superman ele se apresenta como é e
fazendo o bem ganha a confiança e credibilidade dos outros, mais ou menos como
gostaria.
FONTE: http://refricultural.com/super-herois-os-mitos-modernos/
Cogitare!
Reinaldo Corrêa – Professor do E.M de Filosofia.
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